O que as festas de Corpus Christi e tapetes de serragem fazem com o senso de pertencimento do idoso interiorano?

Diego Velázquez
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Yuri Silva Portela

Conforme observa o Doutor Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, iniciativa que leva atendimento multidisciplinar gratuito a comunidades carentes em localidades de difícil acesso no Sertão, as festas de Corpus Christi representam muito mais do que uma celebração religiosa no calendário do interior brasileiro. Para o idoso que cresceu participando da confecção dos tapetes de serragem, que aprendeu os padrões e as técnicas com os pais e os avós e que dedicou décadas a essa tradição comunitária, essa festa é uma das experiências mais poderosas de pertencimento, identidade e continuidade cultural disponíveis na terceira idade.

Ao longo deste conteúdo, veremos o que essa celebração produz sobre o senso de pertencimento, a saúde mental e os vínculos do idoso interiorano e por que preservar o acesso do idoso a essas tradições é também uma forma concreta de cuidado à saúde.

O que a participação na confecção dos tapetes faz com o idoso?

Confeccionar um tapete de serragem para o Corpus Christi é uma atividade que combina trabalho manual preciso, criatividade, colaboração comunitária e transmissão de conhecimento tradicional de uma forma que poucas outras práticas conseguem reunir simultaneamente. Na prática, o planejamento do desenho recruta funções executivas e raciocínio espacial. A seleção e a combinação de cores e materiais ativam processos criativos e estéticos. Da mesma forma, a execução cuidadosa dos padrões exige atenção sustentada e coordenação motora fina. E tudo isso acontece em um contexto de trabalho coletivo que cria vínculos e senso de propósito compartilhado.

Yuri Silva Portela explica que, para o idoso que domina as técnicas tradicionais de confecção dos tapetes, esse conhecimento tem um valor identitário específico que vai além da habilidade técnica: ele representa um legado cultural aprendido de gerações anteriores e transmitido às gerações seguintes, posicionando o idoso como guardião de uma tradição que depende dele para continuar existindo. Esse papel de transmissor cultural tem impacto profundo sobre o senso de propósito e de contribuição que o envelhecimento progressivamente ameaça.

Senso de pertencimento e a festa como afirmação de comunidade

O Corpus Christi no interior brasileiro é uma das celebrações em que a comunidade inteira se mobiliza em torno de um objetivo comum, com cada família, cada rua e cada grupo contribuindo para a criação coletiva que cobre o percurso da procissão. Para o idoso que participa dessa mobilização, a experiência de ser parte de algo que envolve toda a comunidade, que tem um resultado visível e belo e que atrai admiração e reconhecimento de moradores e visitantes é uma das formas mais poderosas de senso de pertencimento disponíveis na terceira idade.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Para Yuri Silva Portela, o senso de pertencimento comunitário tem impacto fisiológico documentado: ele reduz marcadores de estresse, melhora indicadores de saúde mental e está consistentemente associado a maior longevidade em estudos populacionais. O idoso que se sente parte de uma comunidade que o reconhece, que valoriza sua contribuição e que celebra junto com ele as tradições que compartilham está recebendo uma forma de cuidado que nenhum serviço de saúde formal consegue oferecer com a mesma autenticidade.

Memória afetiva e a festa como reconexão com o passado

As festas de Corpus Christi carregam camadas de memória afetiva que o idoso acumulou ao longo de décadas de participação. O cheiro da serragem colorida, o som das músicas religiosas, as conversas com vizinhos durante a confecção dos tapetes e a imagem da procissão passando sobre o trabalho coletivo são estímulos sensoriais que ativam memórias autobiográficas com uma intensidade que o cotidiano raramente proporciona. Para o idoso com demência leve a moderada, essa ativação de memórias sensoriais antigas tem valor terapêutico específico que programas formais de reminiscência raramente conseguem replicar com a mesma profundidade.

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, participar de uma tradição que se repete há décadas e que sempre foi vivida em comunidade oferece ao idoso uma experiência de continuidade temporal que é particularmente valiosa em uma fase da vida marcada por tantas descontinuidades. A festa que aconteceu quando ele era criança, que aconteceu quando seus filhos eram pequenos e que acontece agora com seus netos ao redor é uma âncora de identidade que o tempo não consegue apagar.

Como garantir que o idoso continue participando ativamente?

Com o avanço da idade e as limitações funcionais que frequentemente acompanham a terceira idade, o risco é que o idoso seja progressivamente excluído da participação ativa nas festas comunitárias, passando de protagonista a espectador e perdendo exatamente o que torna essas celebrações terapeuticamente valiosas para sua saúde.

Yuri Silva Portela destaca que adaptar as tarefas de confecção dos tapetes às capacidades do idoso, seja simplificando os padrões que ele executa, seja posicionando-o confortavelmente para trabalhar sentado, seja reconhecendo publicamente sua contribuição e seu conhecimento, são formas de inclusão que preservam o protagonismo do idoso na tradição que ajudou a construir. Mais do que isso, o tapete que tem a mão do idoso é mais bonito, não apesar das limitações de quem o fez, mas por causa de tudo que aquelas mãos carregam de história e de amor.

 

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