O dólar começou 2026 perto de R$ 5,50 e chegou a R$ 4,99 no início de outubro, uma desvalorização de cerca de 10% frente ao real. Segundo Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, movimentos dessa intensidade mostram por que a proteção cambial não pode ser tratada como questão de sorte. Empresas que importam, exportam ou têm dívidas em moeda estrangeira precisam de uma política clara para gerenciar o risco.
Quem está exposto ao câmbio
A exposição cambial vai além das empresas que operam diretamente no comércio exterior. Exportadores recebem em moeda estrangeira e perdem receita quando o real se valoriza. Importadores pagam em dólar e veem os custos subirem quando a moeda americana se fortalece. Empresas com financiamentos em moeda estrangeira sentem o impacto diretamente no endividamento.
Há também a exposição indireta. Negócios que compram insumos cotados em dólar, mesmo de fornecedores nacionais, ou que concorrem com produtos importados são afetados pelas oscilações. Mapear todas as fontes de exposição, diretas e indiretas, é o primeiro passo para definir o tamanho do risco e a necessidade de proteção.
Os instrumentos de proteção
O instrumento mais utilizado é o contrato a termo de moeda, que fixa hoje a taxa de câmbio de uma operação futura. A empresa elimina a incerteza sobre o valor que vai pagar ou receber, mas abre mão de eventuais ganhos caso o câmbio se mova a seu favor. A simplicidade torna o instrumento acessível a empresas de diferentes portes.
Na percepção de Marcio Alaor de Araujo, as opções de moeda oferecem uma alternativa mais flexível. Mediante o pagamento de um prêmio, a empresa garante uma taxa máxima ou mínima, mas preserva a possibilidade de se beneficiar de movimentos favoráveis. O custo é maior, mas pode compensar quando a incerteza é elevada ou quando a empresa não quer abrir mão de oportunidades.

A proteção natural
Antes de recorrer a instrumentos financeiros, vale avaliar a proteção natural. Empresas que têm receitas e despesas na mesma moeda conseguem equilibrar parte da exposição. Um exportador que também importa insumos, por exemplo, reduz o impacto líquido das variações cambiais sobre o resultado.
Estratégias operacionais também ajudam. Negociar contratos com cláusulas de reajuste cambial, diversificar fornecedores e mercados ou ajustar a moeda de financiamento à moeda das receitas são formas de reduzir o risco sem depender exclusivamente de derivativos. A proteção natural costuma ser mais barata e duradoura.
Os erros mais comuns
Um erro frequente é usar instrumentos de proteção como forma de especulação. Empresas que contratam operações acima de sua exposição real, apostando na direção do câmbio, transformam um instrumento de segurança em fonte de risco. Casos de perdas relevantes com derivativos costumam ter essa origem.
Como enfatiza Marcio Alaor de Araujo, outro erro é proteger apenas quando o câmbio já se moveu, movido pelo medo de novas oscilações. A proteção cambial funciona melhor como política permanente, com percentuais definidos de cobertura e prazos estabelecidos, e não como reação a notícias. A disciplina evita decisões emocionais em momentos de volatilidade.
Uma política de proteção cambial
Uma política formal de proteção cambial define quais exposições serão protegidas, em que percentual, por quais instrumentos e com quais limites. Também estabelece quem pode aprovar as operações e como os resultados serão acompanhados e reportados à diretoria e ao conselho.
Na avaliação de Marcio Alaor de Araujo, a proteção cambial deve ser vista como parte da gestão de risco, e não como fonte de lucro. O objetivo é dar previsibilidade aos resultados e permitir que a empresa se concentre em seu negócio principal. Em um ambiente de oscilações frequentes, a previsibilidade se torna uma vantagem competitiva relevante.

